DBR

dbr

Foi proposto pelo Professor Doutor António Moreira docente da Unidade Curricular Metodologias de Investigação na Educação do MCEM da Universidade Aberta a identificação, a escolha e respetiva justificação de um artigo relacionado com a metodologia Design Based Research (DBR).

Após pesquisa aprofundada sobre a temática decidi que a estratégia da escolha seria assente na minha área de atuação enquanto Designer, Professor/Formador na área das TIC e Multimédia. Nesse sentido optei por escolher um artigo de dissertação para o grau de Mestre do curso de MCEM da Universidade Aberta de 2012 realizada por José Nobre e orientada pela Professora Doutora Alda Pereira. A dissertação intitula-se: A utilização das TIC como novas abordagens no ensino das artes visuais. Conceção e desenvolvimento de recursos multimédia – digital storytelling.

O trabalho realizado além de se enquadrar na temática (área de ação) que me identifico, conforme já referido, também é recente (2012), critério que considerei importante porque o facto de a metodologia se apresentar como inovadora alterando conceitos e praxis no contexto da investigação educacional, é um pressuposto a ter em atenção na escolha, a particularidade de ser um trabalho realizado no Curso de Mestrado que frequento e ter como “palco” a Universidade Aberta também terá tido algum peso na opção, pois daqui por uns tempos estarei eu a realizar a respetiva dissertação.

Mas obviamente, o critério principal é a utilização da metodologia DBR como base de investigação, tem como intenção abordar novas metodologias de ensino no sentido de envolver os alunos, tornando-os reflexivos, críticos, integrados num contexto atualizado, tirando partido das condições que são oferecidas pelas novas tecnologias em rede que permita produzir conhecimento científico de forma colaborativa.

Contudo, considero pertinente antes de responder às questões colocadas pelo professor fazer um breve enquadramento da metodologia DBR.

Esta metodologia que em português se pode intitular como Pesquisa Baseada em Design, e sem pretender entrar em profundidade em questões linguísticas, a palavra Design neste contexto estará mais perto do termo planeamento, foi introduzido no contexto educacional por Brown (1992) e Collins (1992), baseada no conceito de Design Experiments.

A metodologia pode caraterizar-se como um conjunto técnicas de análise que possibilitam a interação entre a teoria e a prática na educação, permite conjugar a investigação empírica educacional com a teoria criando ambientes de aprendizagem em contexto educacional. Segundo os autores em cima referidos, pretende ainda resolver problemas complexos em contextos reais em franca colaboração com os profissionais que intervêm na área de ação, propõe integrar princípios de design hipotético recorrendo à enorme panóplia de ferramentas tecnológicas que estão à disposição no sentido de construir soluções credíveis para problemas com elevado grau de complexidade, tirando partido da investigação realizada de forma rigorosa, reflexiva com a intenção de desenvolver, testando e aprimorando ambientes de aprendizagem com características inovadoras assim como a definição de novos princípios orientadores de Design.

De acordo com Wang e Hannafin (2005) é uma metodologia sistemática mas simultaneamente flexível que pretende otimizar as práticas educacionais através da análise, do desenvolvimento e da respetiva implementação, assentando na colaboração entre os investigadores e os sujeitos, enquadrados em cenários reais.

Estes autores enfatizam ainda algumas características relevantes da metodologia:

Pragmática – é uma teoria que interage com a prática, com a intenção de solucionar problemas reais;

Fundamentada – deve estar norteada e fundamentada em pesquisas importantes, os estudos são conduzidos e aplicados na prática em contextos reais;

Interativa, iterativa e flexível – É interativa, porque os pesquisadores trabalham em parceria com os agentes envolvidos (alunos, professores e equipa de desenvolvimento) na prática de ensino – aprendizagem, identificando problemas e desenvolvendo princípios para as respetivas soluções pedagógicas. É iterativa, porque é caracterizada pelos vários ciclos da investigação (planeamento, implementação, análise ou novo planeamento…). Considera-se flexível exatamente por isso, pode ser necessário alterar o processo, o planeamento deve poder suportar mudanças ao longo da investigação;

Integradora – Os investigadores recorrem a vários métodos segundo as várias fases do processo, como por exemplo, entrevistas, estudo de caso, avaliação, etc.;

Contextual – Ainda que os resultados da pesquisa estejam inseridos num contexto específico, podem também servir de base a outros projetos e investigações, desenvolvimentos de teorias, etc.

Conforme se pode constatar a metodologia não se esgota apenas na investigação, pretende ir mais além ao propor novas práticas educativas, Edelson (2002) preconiza que a DBR pode servir de base a 3 tipos de teorias:

Domínio das Teorias, pretende descrever situações de aprendizagem e as suas interações;

Quadro de Design, oferece elementos norteadores para a consecução do projeto;

Metodologias do Design, permitem orientar a implementação do projeto, e partindo das suas características iterativas poderão estar na base da realização de novos projetos.


Assim, na tentativa de responder às questões levantadas pelo professor:

1) Quais os aspetos mais inovadores da abordagem apresentada?

Conforme já foi abordado no breve enquadramento acima realizado da metodologia, também é possível reforçar a resposta no artigo selecionado:

”A investigação baseada no planeamento (DBR) – representa um novo paradigma de investigação no aprender a ensinar. Neste estudo, a planificação, construção e implementação das atividades de investigação foram tarefas levadas a cabo nas aulas, através de um trabalho colaborativo entre todos os agentes envolvidos, permitindo aproximar a teoria à prática. Os alunos comunicaram, partilharam, negociaram até chegarem a um produto final de uma forma colaborativa.” (Nobre, J., 2012, p. 60)

De acordo com o autor do trabalho a metodologia DBR representa um novo paradigma de investigação no aprender e ensinar, estamos pois perante um inovador método de investigação que tem o mérito de envolver os vários intervenientes num processo dinâmico que permite uma interação entre a teoria e a prática, possibilita ao aluno de forma colaborativa, comunicar, partilhar, negociar com uma maior autonomia mas também com exigência e responsabilidade na procura da co construção do conhecimento.


2) De que forma se relaciona com as abordagens tradicionais descritivo/qualitativo e/ou experimental/quantitativo?

A relação que tem com as abordagens tradicionais prendem-se com as razões já anteriormente apontadas, possibilitam uma aplicação de várias metodologias e tipos de pesquisa, quer qualitativos, quer quantitativos conforme o respetivo caso e fase do processo.

A investigação foi apresentada como um estudo no âmbito de uma dissertação de Mestrado – MCEM, a apresentar à Universidade Aberta com o objetivo de tanto quanto possível, identificar atitudes, conhecimentos e práticas de utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) e de Produtos Multimédia (PM) no ensino das artes visuais. Pretendia-se a introdução de uma nova variável (exemplo – produção de uma aplicação multimédia – Digital Storytelling, DST) num determinado processo/ambiente de aprendizagem.

“Um dos objetivos deste estudo foi desenvolver e conceber produtos multimédia, partindo do aluno como produtor (aluno como produtor de conhecimento na “Sociedade da Informação”), mais concretamente produzir digital storytelling (DST) de cariz social e pedagógico e cujo produto final foi disponibilizado em diversas plataformas, tais como smartphones, tablets e PC.” (idem, p. 63)

No sentido de compreender melhor a metodologia e a sua relação com as abordagens tradicionais, de uma forma o mais sintética possível, são apresentadas algumas fases do processo de investigação.

Foi utilizado o questionário como método quantitativo. “A utilização do questionário permite estabelecer uma medição a partir das questões nele contidas. Falamos de um instrumento que deve permitir responder às questões de investigação, com vista à recolha de dados, uma vez que elas poderão justificar o trabalho da parte empírica da investigação”. (Nobre, J., 2012, p. 53)

A caracterização da amostra foi a seguinte:  “O universo de distribuição dos questionários e posterior recolha da amostra dos respondentes, foi a um conjunto dos professores de Artes Visuais do 2º, 3º ciclo do ensino básico e do secundário, das escolas do concelho da Marinha Grande, Leiria e Batalha. Aplicados os questionários, foi possível recolher 33 questionários de professores, de um total de 47 enviados o que constituiu uma taxa de retorno de 70,21%.” (Idem, p. 55)

O tratamento dos dados decorreu da seguinte forma: “Uma boa avaliação através de questionários deve abranger recolha e análise de respostas de forma eficiente. Para isso, é desejável um sistema que automatize ao máximo esse processo. Como tal utilizamos o Google Doc, um gerenciador de questionários que disponibiliza vários tipos de questões para atender a diversas necessidades, questões objetivas, questões abertas, questões de resposta numérica, entre outras.” (idem, p. 55)

Assim “(…) através da observação participante, do diálogo com os alunos, tivemos a oportunidade de estabelecer uma colaboração que aprofundou o conhecimento sobre o impacto da nova variável sobre os alunos e sobre o ambiente do contexto em causa.” (Idem, p. 59).

Porque a conceção e desenvolvimento de um produto é um processo dinâmico e em evolução, que se baseia numa metodologia estruturada, e para que todas vertentes do projeto de um produto sejam levadas em consideração a metodologia aplicada foi o DBR, porque “(…) se enquadrou, no nosso entender e pelas suas características, no desenvolvimento deste projeto, uma vez que o que se pretendia era a produção em contexto real de formação, das técnicas de Digital Storytelling, bem como a aferição dos desafios na respetiva implementação e adequação a contextos formativos.” (Idem, p. 60)


3) Que dificuldades antecipam na sua implementação?

O facto desta metodologia assentar também nas novas tecnologias, pressupõe a existência de material tecnológico, computadores, acesso à internet, plataformas móveis, projetores, etc.
Como é do domínio público, Infelizmente vivemos uma fase onde o desinvestimento impera na educação, a economia está contraída e não favorece o investimento, o setor da educação é um dos mais penalizados, esta constatação pode traduzir-se como um constrangimento na implementação de metodologias que necessitam de material tecnológico. Nas zonas que não pertencem aos grandes centros populacionais, interior do país, por exemplo, também podem sofrer com este tipo de impedimento.

Outro fator que poderá envolver dificuldades é a necessidade de motivar os intervenientes do processo a atuarem como equipa, todos os agentes terão necessariamente que estar envolvidos no processo, é naturalmente um desafio que é colocado muitas vezes ao professor enquanto mediador, facilitador do processo, terá que desenvolver estratégias que envolvam os alunos, o facto de serem utilizados materiais tecnológicos podem permitir essas condições, mas podem não chegar por si só.

Por outro lado, o educador deverá dominar as ferramentas, o que pressupõe que o professor deverá ter os respetivos conhecimentos técnicos, poderá ser um fator de grande dificuldade se o professor não estiver devidamente preparado e atualizado. As próprias instituições devem também estar sensibilizadas para a implementação das atividades e disponibilizarem as condições possíveis para o respetivo desenvolvimento das ações. Outro assunto que vem sendo debatido e negociado prende-se com o acesso aos Recursos Educativos Abertos, os REA necessitam de uma política efetiva e objetiva no sentido de serem disponibilizados sem as restrições ainda existentes, por sua vez o fenómeno da Internet e a emergência da Web 2.0 traduziram-se numa generalização de informação que muitas vezes carece de uma “filtragem” ao nível da qualidade, a avaliação realizada por órgãos independentes, isentos como o SACAUSEF (em Portugal) podem oferecer essa validação. No que concerne a dificuldades encontradas no artigo selecionado, pode-se constatar o seguinte:

“No entanto, pode-se concluir que a plataforma Moodle serve essencialmente como ferramenta de comunicação entre docentes , tendo menor impacto ao nível da comunicação com os alunos. É expectável que tal aconteça dado que nas ações de formação realizadas pelos professores, é prática comum a utilização do Moodle.

Dadas as características desta plataforma e das potencialidades evidentes do seu uso no processo ensino aprendizagem, julgamos que este é um novo desafio para professores e alunos, que urge analisar e refletir. A questão é tentar perceber porque esta ferramenta de comunicação é menos utilizada pelos alunos do que com os pares (professores): será que, face ao contexto das redes sociais, esta ferramenta é menos apelativa para os alunos, sendo paulatinamente posta de parte e tornando-se ultrapassada?” (Idem, p. 60)


4) Quais as principais implicações/conclusões?

De uma forma geral, as conclusões retiradas deste estudo podem considerar-se positivas, “A implementação de novos modelos curriculares com maior ênfase em competências transversais e na realização de tarefas de uma forma autónoma por parte do aluno, justifica a formação de professores de forma a dar resposta a estes paradigmas, incluindo as TIC como ferramentas potenciadoras e geradoras de novas situações de aprendizagem e metodologias de trabalho.” (Idem, p. 82)

O estudo realizado conclui que existem benefícios concretos na utilização das TIC na aprendizagem. “Por fim, 58% dos inquiridos acredita bastante que a integração das TIC no processo de ensino/aprendizagem pode melhorar a aprendizagem dos alunos enquanto 3% julga que a sua utilização não melhora nada a aprendizagem dos alunos na área de artes visuais.” (Idem, p. 81)

No sentido de entender o posicionamento dos alunos face ao DBR, pode-se observar o seguinte:

“A metodologia que utilizamos permitiu-me manter e até aumentar a motivação ao longo da realização de todo o trabalho. Foi uma forma de estar constantemente empenhada e com elevado nível de interesse. Fez-me sentir realmente que era eu que estava a criar um trabalho meu que é simultaneamente esteticamente interessante e útil.”

Chloé Pires (aluna nº 8 do 12º E da ESEACD)

“A metodologia de Design Basead Reseach foi aquela que até agora me deu mais prazer trabalhar. Permitiu-me conceber, planear, procurar alcançar objetivos, realizar. Foi muito importante sentir que pensei, delineei e realizei. Este trabalho permitiu também um intercâmbio muito enriquecedor com a comunidade. Acho que todas as digital storytelling que a turma produziu ficaram muito boas.”

Bruno Coelho (aluno nº 6 do 12º E da ESEACD)”

(Idem, p. 105)

Estas iniciativas potenciam igualmente um envolvimento de vários agentes do processo, construindo parcerias de forma colaborativa conforme se pode verificar:

“ Estes materiais são um bom exemplo do que pode ser uma parceria entre escolas, autarquias, associações para o desenvolvimento, empresas na área da hotelaria e outras instituições, para a produção de materiais de divulgação, que terão como finalidade última o desenvolvimento da região.”

Professor Doutor Paulo Tojeira (Presidente da direção da MOHER – Associação Para o Desenvolvimento de S. Pedro de Moel)”

(Idem, p. 108)

O autor do artigo nas conclusões do mesmo deixa bem vincado as virtudes que subjazem esta metodologia:

“Estudamos a problemática (tema ou problema) através de uma ação investigativa e de intervenção. Adotamos uma metodologia de investigação Design Based Research que foi desenvolvida de forma a melhorar as práticas educativas através de pesquisas prévias, levadas a cabo no terreno, em contexto real, com a colaboração direta de todos os envolvidos neste projeto. Fornecendo orientações para um projeto e metodologias de design, que serviram de diretrizes para a implementação do projeto e pelas suas características iterativas podem servir de base a novos projetos.” (Idem, p. 116)

Não existem fórmulas perfeitas, deve-se tentar retirar o melhor que existe em cada metodologia e aplica-las no terreno de forma contextualizada, a metodologia DBR acaba por ter esse mérito, não desaproveita qualquer método, seja quantitativo, qualitativo ou crítico, adequa-o conforme o caso e a respetiva fase do processo, aplica-o no cenário tendo a preocupação de integrar os vários agentes do processo de forma colaborativa e abrangente. Simpatizo particularmente com a metodologia porque não tem um posicionamento estanque, é flexível e ajustável à realidade, não ficando amarrada a “dogmas” e princípios que não se ajustam à realidade. Por outro lado, não descarta ninguém, todos os agentes são importantes, podem e devem contribuir em equipa num contexto de “Inteligência coletiva”, no sentido da co construção do conhecimento.


Opção Bibliográfica:

Nobre, J. (2012). A utilização das TIC como novas abordagens no ensino das artes visuais. Conceção e desenvolvimento de recursos multimédia – digital storytelling.
https://repositorioaberto.uab.pt/bitstream/10400.2/2214/1/DISSERTA%C3%87%C3%83O-JoseNobre.pdf.

Bibliografia consultada:

Anderson, Terry, (2005),Design-based Research and its Application to a Call Centre Innovation in Distance EducationVol. 31(2). http://www.cjlt.ca/content/vol31.2/anderson.html.

Brown, A. L. (1992). Design experiments: Theoretical and methodological challenges in creating complex interventions in classroom settings. The Journal of The Learning Sciences.

Collins, A. (1992). Toward a design science of education. In E. Scanlon&T. O’Shea (Eds.), New directions in educational technology (pp. 15–22). New York: Springer-Verlag.

Design-Based Research: An Emerging Paradigm for Educational Inquiry, by DBR Collective, http://www.designbasedresearch.org/.

Edelson, D. C. (2002). Design Research: What we learn when we engage in design. Journal of the Learning Sciences , 11(1), 105-121

Instruccional Design Models. http://carbon.ucdenver.edu/~mryder/itc/idmodels.html.

Wang, F., & Hannafin, M. J. (2005). Design-based research and technology-enhanced learning environments. Educational Technology Research and Development, 53(4), 5-23. http://projects.coe.uga.edu/dbr/explain01.htm#references.

http://dbr.coe.uga.edu/index.htm.

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